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Certo moço foi criado sem o pai por perto e aprendeu, desde cedo, que deveria cuidar da mãe, dos tios, enfim, da família. Tornou-se ainda menino o homem da casa, e quando um menino é forçado a se tornar homem, ele desenvolve uma responsabilidade cruel.

Estudou muito e começou a trabalhar cedo, enfiou-se na frente de um computador, tornou-se especialista em programação e como bomnerd, de lá só saia para as noitadas e bebedeiras com poucos amigos. Nunca teve a intenção de criar vínculos, porque de aprisionamento ele entendia bem.

Saiu da cidade pequena e foi morar na capital. A vida apenas corria, até o dia em que ele resolveu ter um hobby, fazer algo diferente do que estava acostumado e se matriculou, vejam só, num curso de padeiro. A explicação era simples, cozinhar é uma forma de arte, e isso é um alívio para quem leva uma vida tão pragmática.

O engraçado é que apesar da intenção de ter um hobby, ele não deixava a ligação com o “pão de cada dia”.

As aulas começaram numa noite chuvosa de Sampa, obviamente ele chegou encharcado e tremendo de frio. Na sala grande e repleta de bancadas, estava reunido um pequeno grupo de cinco pessoas, uma delas, o padeiro, um senhor de uns sessenta e muitos anos, de chapéu de mestre cuca, avental impecavelmente branco e um sorriso de orelha a orelha.

A primeira aula demandava poucos conhecimentos, bastava saber o que era farinha, água, ovo e sal a gosto. E lá estava o moço, sovando uma massa morna e pesada, com força e vontade. Nada mais lhe passava pela cabeça, além da possibilidade de assar um pão e comê-lo ainda quente.

Tudo se tornou uma grande brincadeira, a sujeira da farinha, os ovos quebrados, a massa grudenta na mão, os pães queimados e as palavras de incentivo do mestre. E aquele homem precoce tornou-se um menino feliz, uma vez por semana, durante três horas. Aguardava ansiosamente por esses dias e seu mentor passou a ser seu melhor amigo. Era a primeira vez que alguém o orientava de forma lúdica, permitindo que ele fosse do seu jeito, com suas dificuldades e talentos.

E foi assim que aquele moço, de olhar triste e jeito de velho, começou a mudar. Seus dias de programador perderam o sentido e o computador já não tinha o mesmo apelo. Decidiu abandonar o trabalho e voltou para cidade pequena. Lá, abriu sua padaria e passou a fazer os melhores pães da região. Passou a sorrir, ganhou muitos amigos e perdeu o medo de ser aprisionado. Agora, ele era livre de sim mesmo.

Do mentor guardou as palavras sábias: “É possível sovar os sentimentos a vida toda, mas chega o dia em que eles se expandirão e necessariamente terão que passar pelo fogo. Os resultados poderão ser deliciosos”
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