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A nudez de todos

Sinopse rápida: Odenir é um personagem que representa todos nós ao cotidiano.

Odenir viaja muito a trabalho, demais até. Acostumou-se à estrada, aos aeroportos, às intempéries que atrasam horários, aos restaurantes sofisticados para encontro de negócios, aos botecos de beira de estrada, onde nem a água engarrafada é confiável, aos hotéis de todo tipo, com mais ou menos estrelas, enfim, adaptou-se ao viável, quando o ideal não é possível.


Ele conversa, diariamente, com um número enorme de pessoas, com aquele domínio invejável da palavra. Odenir é um homem preparado pela vida e a enfrenta com sabedoria, otimismo e coragem. Difícil imaginá-lo desconcertado, mas nada poderia prepará-lo para certo encontro insólito.

Almoçando sozinho num restaurante de estrada, percebeu que todos ao redor olhavam espantados para ele. Segundos passaram até ele se dar conta do que acontecia. Uma mendiga estava ao seu lado, na sua mesa, clamando por alguns trocados e, numa cena vexatória, totalmente nua. Sim, uma mulher nua insistia em se aproximar, e ele só queria distância.

Num instante, a mulher foi arrastada para fora do local e ele permaneceu imóvel, perplexo sem mover um músculo. Passado o susto e retornando à estrada, ele experimentou sentimentos confusos. “Uma pessoa desesperada na minha frente, eu sem ação e todos assustados! Quem era mais louco ou atormentado? Ela sem roupa, todos impassíveis. Quem estava verdadeiramente nu e exposto?”.

Deparar com a miséria humana é chocante!

Essa história me fez refletir sobre como a vida, aquela que tentamos viver dignamente, assemelha-se ao cotidiano do Odenir: uma sequência de adaptações durante uma jornada desconhecida, uma viagem onde nem sempre é possível seguir um roteiro satisfatório, por mais que nos planejemos.

Eventualmente, somos assaltados por um ou outro fato pitoresco, bizarro, provocador, que nos leva à reflexão.

A mulher nua, o ser inusitado, a situação de caos, inesperada e conflituosa, a paralisia, a pressão, os sentidos se esvaindo e a consciência de que é preciso fazer alguma coisa, nem que seja arrastar um problema, à forceps, para fora de nossas vidas. E tudo pode acontecer num segundo!

Odenir vivenciou, naquele dia, a dor e a delícia do imprevisível, apenas um susto que trouxe à tona muita filosofia.

Esse é o desafio da vida, conseguir avaliar com serenidade o que nos sobressaltou, compreender o que nos paralisou e buscar novas formas reagir. Nem sempre a experiência nos salvará no futuro, mas sempre teremos boas histórias para contar.
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